quinta-feira, 5 de junho de 2008

Dificuldades superadas no Mercado de São José




A diversidade cultural é imensa. Chapéu de couro, redes, sombrinhas, artesanatos, bibelôs pernambucanos, especiarias, quadros de times, comidas típicas e atípicas e, na entrada principal, uma extensa bandeira vermelha e preta com um escudo do Sport Clube do Recife, pendurada entre as colunas dóricas construídas na segunda metade do século 18. É essa a descrição abiótica do mais tradicional mercado da capital pernambucana, o Mercado de São José, hoje, tombado como Patrimônio Arquitetônico e Histórico Nacional.

Circulam, entre os enormes corredores com o piso desgastado, todo tipo de cliente. Crianças param para ver as miniaturas artesanais, homens geralmente passeiam entre os setores de carnes e frios, mulheres vêem artigos de couro, uma freira encerra suas compras com dois quilos de camarão Vila Franca e as moscas pousam sobre os plásticos, que cobrem as carnes por sobre os balcões de azulejos brancos. Essa é a descrição humanizada do local.

Nas grandes passarelas, pode-se observar uma infinidade de boxes, cada qual com sua história, mundo e clientela particulares. Muitos desses comerciantes, personagens conhecidos pelas marcas do cotidiano e tempo de comércio local. Na última sessão, onde se encontra a maior diversidade de produtos, está sentado entre um box de artesanatos e outro alimentício, em um pequeno caixote de madeira, um senhor que aparenta estar na casa dos 80 anos. Trajando uma calça social, chinelo de couro e uma camiseta de botão semi-aberta e listrada de azul e branco. Esse deve ter muita história para contar, pensei. Aproximei-me, identifiquei-me e uma seca resposta ecoou aos meus ouvidos: “Não vou falar nada, pois hoje minha pressão está alta”, defendeu-se o senhor, que nem seu nome quis expor. Desculpei-me e desejei-lhe melhoras.

“Perdi tudo no maior incêndio da história do mercado. Mais de 300 metros de altura cobertos pelo fogo”.

Desistir não era interessante para mim e no meio de tantos casos e acasos, encontrei o senhor proprietário do box 282, que tinha muita história para contar. Era conhecido como o “Seu” Bartolomeu, um senhor de estatura média com 56 anos de idade e 38 de instalado em seu ponto. Quando tinha cinco anos de idade, Bartolomeu Luiz de Santana fora trabalhar por necessidade para ajudar os pais, desde então não parou mais.

O Mercado foi parar como rotina diária na vida de “Seu” Bartolomeu por falta de opção. Ele precisava entrar no comércio, gostava de fazer grandes negócios, mas os pontos soltos da cidade tinham preços altos e não competia ao comerciante. Este, por sua vez, não hesitou e continuou a sua batalha, mesmo sem gostar do local de trabalho. “Não gosto daqui. Vivo porque tenho que viver mesmo. Os freqüentadores são muito mal educados”, contou-me conformado.

Conseguiu construir sua trajetória de vida, com filhos e esposa, que juntamente trabalhavam no Comercial BBB de Artesanatos, box 282. Seu Bartolomeu, que freqüenta a Assembléia de Deus todos os domingos e nos dias de semana quando chega cedo em casa, teve a sua fé posta em cheque pela primeira vez quando, no dia 17 de novembro de 1987, perdeu tudo o que tinha construído no maior incêndio que acontecera no local. O fogo atingiu 300 metros e a vida de centenas de pessoas, que dali tiravam seu sustento.

Seu Bartolomeu não desistiu, persistiu e se reergueu quando conseguiu emprestado com um amigo do ramo, 10 pares de chinelos de couro e começou a fazer dinheiro novamente. Ganhou créditos com seus fornecedores e com dois meses de reabilitado já vendia a grosso. Não demorou mais que três anos para acontecer um novo atropelo na vida da família Santana. No governo Collor, o banco segurou cerca de R$ 20 mil do comerciante, que mais uma vez endividou-se, devendo a fornecedores. Ele não se deixou render e se mostrou firme na profissão.

Com sacrifício e o estoque que restava na loja, Seu Bartolomeu sobreviveu a mais um obstáculo na sua vida. Com a família presente no seu comércio, ele pensava estar seguro e amparado, quando pela terceira vez, ele, seu Bartolomeu, foi posto diante de outra dificuldade. Dessa vez, a queda atingiu além do bolso, o seu coração quando soube que seu filho e esposa levaram mais de R$ 300 mil em mercadorias. Com isso, seu Bartolomeu entrou na justiça para recuperar os danos materiais, já os morais vão depender do bondoso coração do comerciante. Reerguendo-se mais uma vez, seu Bartolomeu é um exemplo de perseverança. Um modelo a ser seguido tanto pelo caráter, quanto pelo seu espírito.


Repórter: Rebeca Tavares

Um comentário:

Unknown disse...

esse teve meu aval...